Em engenharia estrutural e de controle, saber como diferentes grandezas interagem é tão crítico quanto entender seus comportamentos isolados. A variação da velocidade do vento afeta a amplitude de vibração de uma ponte estaiada de forma proporcional? O desgaste da ferramenta de corte interage linearmente com a temperatura do processo de usinagem?
Para mensurar a força e a direção dessa dependência linear entre duas variáveis aleatórias \(X\) e \(Y\), utilizamos duas métricas fundamentais: a Covariância e o Coeficiente de Correlação.
8.1 Covariância
A covariância calcula a medida em que duas variáveis variam conjuntamente de forma linear. Se altas pressões ocorrem simultaneamente com altas temperaturas, a covariância é positiva. Se altas velocidades ocorrem simultaneamente com baixo torque, a covariância é negativa.
Covariância
Notação:
\(Cov(X, Y)\) ou \(\sigma_{XY}\)
Definição:
É o valor esperado do produto dos desvios de duas variáveis em relação às suas respectivas médias: \[Cov(X, Y) = E[(X - \mu_X)(Y - \mu_Y)]\]
Fórmula Operacional Equivalente:
\[Cov(X, Y) = E[XY] - \mu_X\mu_Y\]
Nota: Para variáveis independentes, \(Cov(X,Y) = 0\). O inverso não é necessariamente verdadeiro (elas podem ter relação não-linear com covariância nula).
O aplicativo abaixo permite observar a formação do cálculo da covariância utilizando a tabela conjunta discreta. A mesma ideia fundamental se aplica a variáveis contínuas, mas requer o uso de integrais duplas em vez de somas.
Aplicativo 8.1: Covariância e Correlação Linear (Visualização com Tabela Conjunta Discreta)
Exemplo8.1.0.1 Exemplo Dificuldade:
O controle de qualidade de uma montadora automotiva mede o torque do robô de aperto de parafusos do bloco do motor (\(X\), em Nm) e o tempo necessário para o parafuso atingir o estado estático (\(Y\), em segundos).
Foram obtidos os dados discretos (e já marginalizados) das seguintes combinações de operação, onde as médias conhecidas são \(\mu_X = 50\) Nm e \(\mu_Y = 1.5\) s:
Combinação
Probabilidade
\(X\) (Torque)
\(Y\) (Tempo)
1
0.3
48
1.8
2
0.5
50
1.5
3
0.2
53
1.0
Qual é a covariância operacional entre essas grandezas?
Solução Analítica:
Utilizando a definição com os dados da tabela, calcula-se \(E[(X - \mu_X)(Y - \mu_Y)]\):
Multiplicando cada termo do desvio combinado pela probabilidade de ocorrência correspondente, temos: \[Cov(X, Y) = 0.3 \times (-0.6) + 0.5 \times (0) + 0.2 \times (-1.5)\]\[Cov(X, Y) = -0.18 + 0 - 0.30 = -0.48\]
A covariância é negativa (\(-0.48\)), o que comprova numericamente que um maior torque implica em uma estabilização temporal mais rápida.
Prova Computacional:
Código
# Dados do sistemaprobabilidades <-c(0.3, 0.5, 0.2)X <-c(48, 50, 53)Y <-c(1.8, 1.5, 1.0)mu_X <-sum(X * probabilidades)mu_Y <-sum(Y * probabilidades)# Cálculo da covariânciadesvio_X <- X - mu_Xdesvio_Y <- Y - mu_Ycov_XY <-sum(desvio_X * desvio_Y * probabilidades)cat(sprintf("Covariância calculada: %.4f\n", cov_XY))
Covariância calculada: -0.4800
8.2 Coeficiente de Correlação
O problema prático da covariância é que seu valor numérico é atrelado às unidades das variáveis (\(Nm \cdot s\) no exemplo anterior). Isso inviabiliza determinar se a relação linear é “forte” ou “fraca” apenas observando o número absoluto. Para normalizar essa medição, utiliza-se o Coeficiente de Correlação Linear de Pearson.
Coeficiente de Correlação
Notação:
\(Corr(X, Y)\) ou \(\rho_{XY}\)
Definição:
É a covariância dividida pelo produto dos desvios padrões marginais de ambas as variáveis: \[\rho_{XY} = \frac{Cov(X, Y)}{\sigma_X \sigma_Y}\]
Propriedades estruturais:
\(-1 \le \rho_{XY} \le 1\)
\(\rho = 1\): Correlação linear positiva perfeita.
\(\rho = -1\): Correlação linear negativa perfeita.
\(\rho \approx 0\): Ausência de correlação linear detectável.
Utilize o aplicativo abaixo para visualizar o impacto do espalhamento dos dados em um plano cartesiano no valor resultante do coeficiente de correlação linear, \(\rho\).
Aplicativo 8.2: Covariância e Correlação Linear (Visualização Gráfica)
---title: "Covariância e Correlação"format: html---```{r}#| warning: false#| echo: falsesource("../../functions.R")set.seed(42)```Em engenharia estrutural e de controle, saber como diferentes grandezas interagem é tão crítico quanto entender seus comportamentos isolados. A variação da velocidade do vento afeta a amplitude de vibração de uma ponte estaiada de forma proporcional? O desgaste da ferramenta de corte interage linearmente com a temperatura do processo de usinagem?Para mensurar a força e a direção dessa dependência linear entre duas variáveis aleatórias $X$ e $Y$, utilizamos duas métricas fundamentais: a **Covariância** e o **Coeficiente de Correlação**.## CovariânciaA covariância calcula a medida em que duas variáveis variam conjuntamente de forma linear. Se altas pressões ocorrem simultaneamente com altas temperaturas, a covariância é positiva. Se altas velocidades ocorrem simultaneamente com baixo torque, a covariância é negativa.::: {.callout-duas-caixas}::: {.coluna-titulo-dourada}Covariância:::::: {.coluna-conteudo-dourada}**Notação:**$Cov(X, Y)$ ou $\sigma_{XY}$**Definição:**É o valor esperado do produto dos desvios de duas variáveis em relação às suas respectivas médias:$$Cov(X, Y) = E[(X - \mu_X)(Y - \mu_Y)]$$**Fórmula Operacional Equivalente:**$$Cov(X, Y) = E[XY] - \mu_X\mu_Y$$*Nota:* Para variáveis independentes, $Cov(X,Y) = 0$. O inverso não é necessariamente verdadeiro (elas podem ter relação não-linear com covariância nula).::::::O aplicativo abaixo permite observar a formação do cálculo da covariância utilizando a tabela conjunta discreta. A mesma ideia fundamental se aplica a variáveis contínuas, mas requer o uso de integrais duplas em vez de somas.::: {#app-covariancia-correlacao-tabular}<iframe src="apps/covariancia_correlacao_tabular.html" width="100%" height="1200px" style="border:none;"></iframe>Covariância e Correlação Linear (Visualização com Tabela Conjunta Discreta):::::: {.exemplo icon="false"}#### Exemplo `r dif(2)`O controle de qualidade de uma montadora automotiva mede o torque do robô de aperto de parafusos do bloco do motor ($X$, em Nm) e o tempo necessário para o parafuso atingir o estado estático ($Y$, em segundos). Foram obtidos os dados discretos (e já marginalizados) das seguintes combinações de operação, onde as médias conhecidas são $\mu_X = 50$ Nm e $\mu_Y = 1.5$ s:| Combinação | Probabilidade | $X$ (Torque) | $Y$ (Tempo) || :---:| :---:| :---:| :---:|| 1 | 0.3 | 48 | 1.8 || 2 | 0.5 | 50 | 1.5 || 3 | 0.2 | 53 | 1.0 |Qual é a covariância operacional entre essas grandezas?*****Solução Analítica:**Utilizando a definição com os dados da tabela, calcula-se $E[(X - \mu_X)(Y - \mu_Y)]$:1. $X=48, Y=1.8: \rightarrow (48 - 50) \times (1.8 - 1.5) = -2 \times 0.3 = -0.6$2. $X=50, Y=1.5: \rightarrow (50 - 50) \times (1.5 - 1.5) = 0 \times 0 = 0$3. $X=53, Y=1.0: \rightarrow (53 - 50) \times (1.0 - 1.5) = 3 \times (-0.5) = -1.5$Multiplicando cada termo do desvio combinado pela probabilidade de ocorrência correspondente, temos:$$Cov(X, Y) = 0.3 \times (-0.6) + 0.5 \times (0) + 0.2 \times (-1.5)$$$$Cov(X, Y) = -0.18 + 0 - 0.30 = -0.48$$A covariância é negativa ($-0.48$), o que comprova numericamente que um maior torque implica em uma estabilização temporal mais rápida.**Prova Computacional:**```{r}#| warning: false# Dados do sistemaprobabilidades <-c(0.3, 0.5, 0.2)X <-c(48, 50, 53)Y <-c(1.8, 1.5, 1.0)mu_X <-sum(X * probabilidades)mu_Y <-sum(Y * probabilidades)# Cálculo da covariânciadesvio_X <- X - mu_Xdesvio_Y <- Y - mu_Ycov_XY <-sum(desvio_X * desvio_Y * probabilidades)cat(sprintf("Covariância calculada: %.4f\n", cov_XY))```:::## Coeficiente de CorrelaçãoO problema prático da covariância é que seu valor numérico é atrelado às unidades das variáveis ($Nm \cdot s$ no exemplo anterior). Isso inviabiliza determinar se a relação linear é "forte" ou "fraca" apenas observando o número absoluto. Para normalizar essa medição, utiliza-se o **Coeficiente de Correlação Linear de Pearson**.::: {.callout-duas-caixas}::: {.coluna-titulo-dourada}Coeficiente de Correlação:::::: {.coluna-conteudo-dourada}**Notação:**$Corr(X, Y)$ ou $\rho_{XY}$**Definição:**É a covariância dividida pelo produto dos desvios padrões marginais de ambas as variáveis:$$\rho_{XY} = \frac{Cov(X, Y)}{\sigma_X \sigma_Y}$$**Propriedades estruturais:**1. $-1 \le \rho_{XY} \le 1$2. $\rho = 1$: Correlação linear positiva perfeita.3. $\rho = -1$: Correlação linear negativa perfeita.4. $\rho \approx 0$: Ausência de correlação linear detectável.::::::Utilize o aplicativo abaixo para visualizar o impacto do espalhamento dos dados em um plano cartesiano no valor resultante do coeficiente de correlação linear, $\rho$.::: {#app-covariancia-correlacao-grafico}<iframe src="apps/covariancia_correlacao_grafico.html" width="100%" height="1260px" style="border:none;"></iframe>Covariância e Correlação Linear (Visualização Gráfica):::