10  Convolução de Variáveis Aleatórias

Na construção de sistemas em série, frequentemente precisamos prever o comportamento do tempo total de processamento ou da tolerância agregada. Se uma peça automotiva precisa passar por um torno CNC (variável de tempo \(X_1\)) e posteriormente por uma máquina de polimento (variável de tempo \(X_2\)), qual é o modelo exato para a variação do tempo total de produção \(S = X_1 + X_2\)?

A simples soma do valor esperado e o acúmulo da variância (já estudados) oferecem parâmetros resumo, mas não revelam o “formato” da nova distribuição. Para obter a distribuição estatística exata da soma de duas variáveis independentes, a engenharia estatística recorre ao operador matemático da Convolução.

10.1 O Operador de Convolução

A convolução “desliza” uma distribuição sobre a outra para calcular as probabilidades combinadas de todas as configurações possíveis que resultam em uma soma específica.

Convolução (Soma de Variáveis Independentes)

Premissa:

Sejam \(X_1\) e \(X_2\) duas variáveis aleatórias independentes, cuja soma modela o sistema final \(S = X_1 + X_2\).

Caso Discreto (Soma de Convolução):

Para encontrar a probabilidade do sistema atingir exatamente um estado \(s\), soma-se o produto das marginais em todos os pontos compatíveis onde \(x_1 + x_2 = s\):

\[P(S = s) = \sum_{x_1} P(X_1 = x_1) P(X_2 = s - x_1)\]

Caso Contínuo (Integral de Convolução):

O somatório é estendido para um contínuo via integração:

\[f_S(s) = \int_{-\infty}^{\infty} f_{X_1}(x_1) f_{X_2}(s - x_1) dx_1\]

O simulador abaixo demonstra visualmente o princípio do “deslizamento e sobreposição” da integral de convolução para variáveis aleatórias discretas.

Aplicativo 10.1: Convolução de duas variáveis aleatórias discretas
Exemplo10.1.0.1 Exemplo Dificuldade:

Uma linha de pacotes de dados em uma rede embarcada passa por dois roteadores seriais independentes. O tempo de atraso (delay) do Roteador 1 é modelado de forma discreta pela variável \(X_1\), que assume valores \(\{1, 2\}\) ms com probabilidades iguais (\(0.5\) cada). O tempo de atraso do Roteador 2 é modelado por \(X_2\), que assume \(\{1, 2, 3\}\) ms de forma equiprovável (\(1/3\) cada).

Determine a distribuição de probabilidade exata do atraso total \(S = X_1 + X_2\). Qual a probabilidade de o atraso ser igual a \(3\) ms?


Solução Analítica:

Aplicaremos a fórmula discreta da convolução: \(P(S = s) = \sum P(X_1 = x_1) P(X_2 = s - x_1)\). Os valores possíveis para a soma \(S\) estendem-se do mínimo absoluto (\(1+1=2\)) ao máximo absoluto (\(2+3=5\)). Portanto, \(S \in \{2, 3, 4, 5\}\).

A probabilidade do atraso total ser \(3\) ms requer todas as origens possíveis onde \(x_1 + x_2 = 3\): - Cenário A: \(X_1 = 1\) e \(X_2 = 2\). Probabilidade: \(0.5 \times (1/3) = 1/6\) - Cenário B: \(X_1 = 2\) e \(X_2 = 1\). Probabilidade: \(0.5 \times (1/3) = 1/6\)

Somando os cenários independentes: \[P(S = 3) = P(X_1=1)P(X_2=2) + P(X_1=2)P(X_2=1) = \frac{1}{6} + \frac{1}{6} = \frac{2}{6} \approx 0.3333\]

Prova Computacional (Simulação):

Código
n_sim <- 100000

# Geração dos atrasos
X_sim <- sample(c(1, 2), size = n_sim, replace = TRUE, prob = c(0.5, 0.5))
Y_sim <- sample(c(1, 2, 3), size = n_sim, replace = TRUE, prob = c(1 / 3, 1 / 3, 1 / 3))

# Atraso Total
Z_sim <- X_sim + Y_sim

# Cálculo da probabilidade empírica
prob_Z_3 <- mean(Z_sim == 3)

cat(sprintf("Teoria -> P(S=3): 0.3333\n"))
cat(sprintf("Simulação -> P(S=3): %.4f\n", prob_Z_3))
Teoria -> P(S=3): 0.3333
Simulação -> P(S=3): 0.3345

A convolução é o princípio matemático fundamental que fundamenta o Teorema Central do Limite, demonstrando matematicamente que convulsões repetidas de praticamente qualquer formato de distribuição resultam iterativamente em uma distribuição normal (gaussiana).